sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Me 163 Komet - O planador foguete

Esta semana eu estava lembrando de como os alemães realizaram pesquisas na época da 2ª Guerra Mundial. Vários projetos foram pioneiros na tecnologia e na aviação como o motor do Me109 sem carburador e movido a injeção direta, as bombas V1 e V2 com giroscópios, utilização de bombas guiadas, propelentes sólidos, aviões malucos e etc. Foi aí que eu lembrei da "Pulga", ou mais conhecido como Me163 Komet.

O Me163 Komet foi desenvolvido para ser um planador motorizado para interceptação rápida e praticamente acima da sua base ou região. Era um avião muito além do seu tempo e o seu projeto foi cheio de problemas, testes e interrupções temporárias (as datas iniciais são de 1926 e apenas em maio de 1944 é que entrou em serviço). A estrutura de planador foi alterada e fortalecida para receber um motor foguete movido a reagentes muito instáveis como o T-Stoff (Peróxido de Hidrogênio) e C-Stoff (Hidrato de Hidrazina em metanol) além do armamento de 2 canhões de 30mm com 60 cartuchos cada.

Os reagentes eram consumidos em poucos minutos devido ao alto consumo do motor (a autonomia era de no máximo 100Km) que auxiliavam na decolagem rápida do aparelho em uma razão de subida de mais de 3km/minuto e em um ângulo de 80º. O restante do combustível após a decolagem proporcionava 8 minutos de combate contra os bombardeiros B-17 que atacavam o coração da Alemanha. Normalmente o Komet subia até 12.000 metros e desligava o motor, planando a procura das aeronaves invasoras. Ao avistar a concentração de bombardeiros, o piloto ligava o foguete e partia em um mergulho leve para "rasgar" a esquadrilha com os seus canhões. O problema era ter a pontaria certa já que o avião era muito rápido e o mergulho nem sempre era fácil de se controlar, podendo chegar a um pouco mais de 1.000 Km/h.

Li certa vez que mais de 90% das perdas dos Komet foram em acidentes. Vamos aos porquês...

1) O Me163 corria para a decolagem em cima de um carrinho removível com rodas e sem amortecedor. Se a pista não fosse completamente lisa o piloto poderia ter sérios problemas na coluna como ocorreu com o seu principal piloto de testes (Heini Dittmar) sem contar que no final da corrida o avião teria que soltar o carrinho de rodas, através de uma alavanca, fazendo com que o mesmo quicasse no chão como uma bola, correndo o risco dele voltar contra o avião e perfurar o tanque dos reagentes, fazendo com que a cabine fosse invadida com gases tóxicos.

2) O pouso era feito planado em cima de um único esqui central, podendo o avião derrapar ou capotar na pista. Certos acidentes ocorriam e, ao capotar, o restante dos reagentes nos tanques poderia vazar causando queimaduras graves ao piloto.

3) Na decolagem os tanques eram ligados separadamente, primeiro o que continha o reagente "T" e depois o tipo "C", que combinava-se automaticamente, toda a operação ocorrendo em altas pressões para conter a liberação gasosa que poderia explodir o interceptador.

4) O propulsor tratava-se de uma aparelhagem delicada e a única câmara de combustão tinha que ser lavada com água corrente antes da decolagem para retirar os restos de T-stoff e C-stoff.

5) A capota com duas janelas laterais e uma na frente de Plexiglas era frágil podendo não resistir ao impacto de estilhaços ou mesmo de alguns pássaros. O assento não era ejetável, o que impossibilitava o abandono do aparelho em altas velocidades.

Embora as dificuldades existentes, os jovens pilotos eram treinados em planadores do Me 163 e depois de muito treino é que eles podiam voar em artefatos motorizados. A primeira unidade a operar o Komet foi o I/JG400 comandada por Robert Olejnik a partir do final de julho de 1944. A primeira interceptação ocorreu no dia 28 daquele mês. Nenhum bombardeiro foi abatido, em razão da alta velocidade de aproximação, à qual os pilotos não estavam acostumados. Porém, ao que parece, no total os Komets obtiveram 13 vitórias confirmadas, mas 11 Me 163 foram perdidos em ação, seja em acidentes ou abatidos enquanto planavam para aterrissar.

Paralelamente, foi desenvolvida uma nova arma, o canhão SG 500. Este foi instalado na superfície superior do Komet juntamente com células foto-sensíveis. O armamento funcionava da seguinte forma: o Komet fazia a corrida de ataque contra um bombardeiro e quando passava por baixo deste, as células captavam a diferença de luz e disparavam dez artefatos de 50mm na vertical para cima. Esta arma foi usada apenas uma vez, pelo Leutnant Fritz Kelb, em 10 de abril de 1945 contra um bombardeiro Halifax da RAF (Royal Air Force).

Como parte da aliança dos Alemães com os Japoneses, também existiram versões do Me163 para a força aérea e para a marinha nipônica. Eles foram designados como treinadores, caças e interceptadores usando o nome de Mitsubishi Ki-200 Shusui e Mitsubishi J8M1, ambos com 2 canhões de 30 mm Ho 155.

Quando foi assinado o armistício tinham sido construídos 364 Me 163, mas a maioria destes não estava operacional devido aos inúmeros acidentes. Com o término do conflito, várias dessas revolucionárias aeronaves estavam em mãos aliadas. Algumas foram levadas aos Estados Unidos e serviram de base para o projeto "X", cujo aparelho X-1, sob comando de Charles "Chuck" Yeager foi o primeiro aparelho a quebrar a barreira do som no dia 14 de outubro de 1947.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

O Destruidor de Zeros

Este é meu primeiro post. Não sei se utilizarei uma linguagem boa ou correta para blog mas aos poucos vou me adaptando. A minha intensão aqui é trocar informações com pessoas que respiram aviação e se interessam em combates aéreos, batalhas, táticas e tipos de aviões utilizados durante os conflitos da 2ª Guerra Mundial em diante. Minha esposa Sandy e meu amigo Horácio me deram força para começar a escrever e tomei a decisão depois de assistir "ao sei lá que número de vezes" o programa "Combates Aéreos" que passa todas às quintas, 21h, no canal The History Channel. Logo este blogger leva o mesmo nome. Bem, vamos lá...

Durante a 2ª Guerra Mundial, especificamente no teatro do Pacífico, uma aeronave dominava os céus e as batalhas aéreas desde 1940. Esta aeronave possuia uma razão de subida excelente, raio de curva formidável e um alcance jamais visto. Fruto do empenho da indústria japonesa nasceu o Mitsubushi A6M2 Zero, ou Zeke, e até o final de 1943 a palavra derrota não existia para os que o pilotavam.

Porém, esta fase de sucessos estava chegando ao fim. No final de 1942 um Zero quase intacto foi recuperado nas Ilhas Aleutas e enviado à sede da Grumman nos EUA. Os técnicos americanos estudaram a aeronave e avaliaram seus pontos fracos e fortes. A partir desses resultados a Grumman criou o F6F Hellcat e assim as melhores táticas de combate contra o Zero. Este foi o primeiro caça embarcado americano com uma especialidade: destruir Zeros.

Vários aviões aliados seguraram a barra nos comabtes aéreos com os Zeros no Pacífico. P40 Tomahawk e Kittyhawk, P39 Airacobra, Spitfires e outros, cada um com a sua peculiaridade e estratégia de ataque, normalmente entrando em um mergulho forte bem do alto sobre o Zero e fugindo com 100% da potência do motor. Enfrentar de igual para igual o caça nipônico era esperar a morte na certa. Os pesados, porém blindados, P40 (Exército e Força Aérea) e os F4F Wildcat (Marinha) não podiam encarar um dogfight cerrado com o Zero pois este era mais leve e muito mais manobrável.

Infelizmente o Zero possuia um problema muito sério nos ailerons quando entrava em mergulhos acentuados, tornando o avião instável e pronto para o abate. Outros pontos negativos eram a falta de rádio devido ao peso e a má qualidade, nenhuma blindagem e tanques de combustível não auto-vedantes. Bastavam apenas poucos projéteis no tanque de combustível e o Zero virava uma bola de fogo. A busca do menor peso e da maior agilidade teve um preço muito alto para esta grande aeronave.


Em posse dessas informações e um novo avião com motor de 18 cilindros, 2200HP de potência e 6 metralhadoras .50, O F6F Hellcat entrou em serviço no final de 1943 embarcado nos porta-aviões da marinha americana. Os pilotos agora possuiam um avião manobrável, blindado, bem armado, com ótima razão de subida e grande desempenho em curvas e mergulhos. Restava agora apenas o momento para iniciar o combate entre as melhores aeronaves das marinhas envolvidas na guerra do Pacífico.


Se não me engano, antes do Natal de 1943, ocorreu a primeira vítima dos Hellcat em uma patrulha aérea. Quem foi abatido com uma rajada certeira? Um Zero! Daí em diante os pilotos da marinha americana começaram a vingar os Wildcats e durante as batalhas sobre a conquista de Rabaul diversos Zeros, Kates, Oscars e outros aviões nipônicos cairam diante do fogo das .50 dos Hellcat. (Abri um espaço aqui para postar o link do primeiro às do Hellcat em 19 de Novembro de 1943 - Hamilton McWhorter. Belíssima ilustração em: http://www.oldgloryprints.com/First%20Hellcat%20Ace.htm)

Os pilotos dos Zeros ainda sem saber do novo avião americano, continuavam a realizar táticas achando que os oponentes eram os fracos, porém valentes, Wildcats (realmente o F4F era um pouco parecido com o F6F). Uma das táticas era subir em um looping aberto e bem alto pois os Wildcats não tinham potência suficiente para acompanhar. Os Wildcats entravam em estol no meio da manobra e bastava então ao piloto japonês completar o looping e pegar o Wildcat caindo em espiral, abatendo-o com o fogo das 2 metralhadoras 7.7mm e dos 2 canhões de 20mm.

Só que agora era diferente. Os Hellcats acompanhavam as manobras e completavam o circuito do looping. Além disso podiam fazer curvas fechadas e aguentar o fogo das metralhadoras dos Zeros devido a blindagem em volta da cabine e principalmente atrás do piloto. Diversos Zeros cairam dos céus do Pacífico pois agora o dogfight estava de igual para igual. Definitivamente o Hellcat mudou o cenário dos combates aéreos no Pacífico e destronou os Zeros no domínio dos céus.

Recentemente li que existem relatos de que a proporção de vitórias entre os Hellcats e Zero era de 19:1, ainda mais se levarmos em consideração que a marinha japonesa vinha perdendo seus melhores pilotos em combates desde 1942 (principalmente após a batalha de Midway) e não teve tempo suficiente para treinar os novos pilotos. A marinha japonesa bem que tentou criar e produzir versões mais novas do Zero mais já era tarde demais até porque o Japão sofria com a falta de matéria-prima e posteriormente com a queda na indústria e nas reservas de combustível.

Durante o conflito do Pacífico, os Hellcats destruiram mais de 3000 aviões japoneses e os americanos tiveram mais de 300 pilotos com mais de 5 vitórias.

Poucos conseguiram sair da linha de tiro dos Hellcats e um deles foi Saburo Sakai, ás japonês com 80 vitórias. Em um dos confrontos ele se viu entre uma esquadrilha de Hellcats pois sem querer confundiu a estrela da marinha americana pintada na fuselagem com o desenho do sol nascente! Isso mesmo... Sakai tinha problema de visão quando ele se viu entre 16 Hellcats só pensou em uma única saída... fuga rápida e muito exaustiva, quebrando sempre para a esquerda, até chegar na base mais próxima. Mas isso é papo para outro post.

Até breve.